São Julião celebra reencontro histórico com Turim e transforma 56 anos de solidariedade em compromisso para o futuro
Publicado em 02 de Setembro de 2026
Visita do prefeito italiano, Stefano Lo Russo, marca a assinatura oficial do Termo de Cooperação Internacional com a OASI/OMG e celebra uma história construída por mais de mil voluntários
Em uma noite marcada por emoção, reencontros e reconhecimento, o Hospital São Julião escreveu, nesta terça-feira (1º), mais um capítulo de uma história que há mais de cinco décadas aproxima Campo Grande a Itália. A presença do prefeito de Turim, Stefano Lo Russo, do embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, e de representantes da Fundação OASI/OMG marcou a assinatura oficial do Termo de Cooperação Internacional com o Hospital São Julião e transformou em compromisso para o futuro uma relação construída desde a década de 1970.
Para o presidente executivo do Hospital São Julião, Carlos Augusto Melke, o momento representa a oficialização de uma história que já conta com 56 anos de voluntariado italiano dentro da instituição. Segundo ele, mais de mil voluntários já passaram pelo São Julião ao longo desse período, contribuindo não apenas com recursos, mas diretamente para a transformação da estrutura e do atendimento oferecido pela instituição.
“É a oficialização de 56 anos de voluntariado italiano dentro do São Julião. Eles atuam na coleta de donativos e transformam esses recursos em benefícios para cá. Nunca houve um documento que registrasse formalmente essa relação e, pela primeira vez, estamos documentando essa história, que contabiliza mais de mil voluntários que já passaram pelo São Julião. É um patrimônio valioso para o nosso Estado”, destacou Melke.
Acolhimento e entrega – A parceria começou quando a hanseníase ainda era cercada pelo preconceito e pelo isolamento. Na década de 1970, voluntários brasileiros e italianos se uniram para mudar a realidade encontrada no hospital, que ainda carregava as marcas do antigo modelo de atendimento às pessoas com hanseníase.
A atuação italiana foi muito além da arrecadação de recursos. Engenheiros, arquitetos, médicos, enfermeiros, construtores e profissionais de diferentes áreas vieram a Campo Grande para contribuir diretamente com a reconstrução do São Julião e com a melhoria da assistência. O movimento ajudou a transformar um espaço marcado pelo isolamento em uma instituição voltada ao cuidado, à dignidade e à recuperação das pessoas.
“Na época, vieram engenheiros, arquitetos, médicos, enfermeiros, construtores e muitas pessoas da sociedade italiana para ajudar. Eles vieram para reconstruir o São Julião, que estava abandonado, e aprender também a se doar um pouco para quem precisava”, lembrou Carlos Melke.
Um reencontro que atravessou décadas – Entre os jovens italianos que, anos atrás, participaram dessa história estava Stefano Lo Russo. Hoje prefeito de Turim, ele retornou ao São Julião em uma condição completamente diferente, mas carregando consigo as lembranças de uma época que, segundo ele, foi determinante para sua própria trajetória.
O reencontro com Irmã Silvia Vecellio, presidente de Honra do Hospital, foi um dos momentos mais emocionantes da noite. Aos 95 anos, Irmã Silvia representa uma das principais personagens da ligação entre o hospital e a Itália. Foi justamente por meio dela que muitos dos voluntários italianos chegaram ao São Julião e ajudaram a construir parte da instituição que existe hoje.
Emocionado, Lo Russo recordou sua passagem há 23 anos pelo hospital e revelou que a experiência com o voluntariado e com o trabalho desenvolvido junto ao São Julião contribuiu para despertar seu interesse pela vida pública e pela política.
Mais de 20 anos depois, o antigo voluntário retornou como prefeito de Turim para reafirmar uma amizade que ultrapassou fronteiras e se transformou em uma relação institucional entre duas cidades.
“Se hoje sou prefeito é porque há mais de 20 anos, o voluntariado aqui no São Julião me fez entender a importância do cuidado. Aquele jovem não sabia o quanto essa viagem ao Mato Grosso do Sul seria importante e hoje, rever Irmã Silvia, quem tanto se dedicou e criou um novo conceito em atenção, é uma grandiosa emoção”, ponderou Lo Russo.
A assinatura do Termo de Cooperação Internacional simboliza justamente essa passagem de uma história construída pela solidariedade para uma nova etapa de cooperação. O acordo abre possibilidades para novos projetos entre as instituições e para iniciativas envolvendo inovação, tecnologia, meio ambiente e outras áreas de interesse comum.
A aproximação também reforça os vínculos entre Campo Grande e Turim, que são cidades-irmãs desde 2002. Uma relação institucional que nasceu depois de uma história de amizade iniciada muito antes, pelas mãos de voluntários que acreditaram que era possível transformar uma realidade por meio da união e da solidariedade.
Cultura, memória e emoção – A cerimônia também contou com um momento de exaltação da cultura sul-mato-grossense, com a participação do músico Marcelo Loureiro. Ícone da música instrumental brasileira e figura intimamente ligada à história do Hospital São Julião, Loureiro levou ao encontro não apenas sua música, mas também a memória de uma instituição que acompanhou e ajudou a transformar diferentes gerações.
Sua presença simbolizou a força da cultura como elemento de identidade e pertencimento e reforçou que a trajetória do São Julião não é feita apenas de saúde, mas também de arte, educação, solidariedade, meio ambiente e encontros humanos.
Um patrimônio de Mato Grosso do Sul – Ao encerrar a solenidade, o governador Eduardo Riedel destacou a importância do Hospital São Julião para a rede de saúde de Mato Grosso do Sul e ressaltou o potencial da aproximação com a Itália para gerar novas oportunidades de cooperação.
“Quando olhamos o que foi construído desde a Operação Mato Grosso e por Irmã Silvia, é algo excepcional. Temos muita complementariedade nas nossas economias, e o São Julião é extremamente importante para a arquitetura de saúde de Mato Grosso do Sul”, afirmou.
A solenidade reuniu ainda a primeira-dama de Mato Grosso do Sul, Mônica Riedel, representantes do corpo diplomático italiano, entre eles o embaixador Alessandro Cortese e o cônsul-geral da Itália em São Paulo, Mauro Campanella, além de demais autoridades políticas, empresários, profissionais, colaboradores, voluntários e personalidades que fazem parte da história do hospital.
Mais do que a assinatura de um documento, a noite representou o reconhecimento de uma trajetória construída por milhares de gestos de solidariedade. Uma história que começou há mais de meio século, quando brasileiros e italianos decidiram atravessar fronteiras para ajudar a transformar vidas, e que agora ganha novos caminhos para continuar sendo escrita.
Uma história preservada em imagens – A noite também foi marcada pelo lançamento do Álbum Histórico “São Julião 85 anos”, uma publicação que reúne cerca de 500 fotografias e percorre diferentes capítulos da trajetória da instituição. Escrito pela jornalista Lenilde Ramos, o livro resgata personagens, momentos e transformações que ajudaram a construir o hospital ao longo de oito décadas e meia.
Mais do que registrar acontecimentos, o álbum preserva a memória de uma instituição construída por muitas mãos. As imagens revelam a transformação do São Julião desde os tempos em que a hanseníase ainda era marcada pelo isolamento e pelo preconceito até a consolidação de um hospital que hoje atua em diferentes frentes da saúde e mantém sua vocação para o acolhimento e o cuidado.
A publicação reúne registros que atravessam áreas como medicina, assistência hospitalar, ciência, tecnologia, educação, cultura e meio ambiente, eternizando não apenas a evolução da estrutura física do hospital, mas, principalmente, as pessoas que fizeram parte dessa caminhada.
O livro está disponível para venda na Livraria Leitura do Shopping Campo Grande e toda a arrecadação das vendas será revertida ao trabalho do hospital.





